Cientista político da USP aponta carência de mais líderes como terceira dimensão da crise

Cientista político da USP aponta carência de mais líderes como terceira dimensão da crise

Há um desafio prioritário à frente dos partidos políticos, na avaliação do cientista político José Álvaro Moisés, professor titular da USP e diretor do Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (NUPPs) da universidade: recuperar sua relevância não só para o sistema democrático em si, mas para a formação de um maior volume de lideranças políticas com representatividade e capacidade de condução do país. "Os partidos perderam o protagonismo, a centralidade, como elemento importante da democracia", diz o acadêmico, ao criticar a excessiva fragmentação partidária do Brasil e ao apontar necessidade de novas formas de diálogo entre a classe política e a sociedade. "Nós fomos perdendo a capacidade de gerar novos líderes." Leia mais detalhes da entrevista de José Álvaro ao Instituto Teotônio Vilela.


A que fatores se deve à crise enfrentada no país? 

Eu acho que a primeira questão importante é o reconhecimento que nós temos uma crise de liderança. Nesses últimos anos, tanto os analistas, como os observadores, como mesmo a opinião pública, e a chamada classe política, os quadros política, vêm trabalhando a ideia que nós temos uma crise que é basicamente econômica e política.


Qual é a dimensão dessa crise? 

Na área da economia, o resumo melhor da crise é o fato que nós estamos em recessão, pelo menos desde o final dos últimos meses de 2014 para cá, o país está em recessão. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mostrou uma queda muito acentuada, isto tem repercussão na atividade industrial, na atividade econômica do país, e apareceu fundamentalmente no aumento do número de desemprego, da inatividade econômica, retorno da inflação com custo dos efeitos da inflação sobre os mais pobres, dos que se defendem menos, porque a precificação aumenta muito em produtos fundamentais para essa população, os outros segmentos de alguma maneira se defendem. É possível que algumas medidas econômicas do governo do presidente Michel Temer vão nessa direção, da tentava de retomar, mas nós ainda não temos nenhuma base segura para dizer que vai estancar. 


E na área da política?

Nessa área as duas chaves mais importantes da crise são, de um lado, o fato de que o governo eleito em 2014 não foi capaz de coordenar sua base de apoio e ao mesmo tempo manter a governabilidade. Aquilo afundou e levou ao impeachment da presidente Dilma. Tanto por alguns comportamentos de abuso do poder, mas fundamentalmente porque ela perdeu o controle de sua própria base. 


Há outros elementos a serem considerados? 

Nós temos também uma terceira dimensão. Depois da democratização e das lideranças, que tiveram um papel extremamente importante no processo da democratização, fomos perdendo capacidade de gerar novos líderes, ter o contexto em que novas lideranças surgem, são reconhecidas e assumem um papel perante a opinião pública. Quando a gente olha o que acontece na maior parte dos casos, as figuras que ganharam grande importância nos partidos em diferentes países, elas tiveram um longo processo de reconhecimento dentro do partido, uma vida partidária longa, que envolve, às vezes, vitórias e derrotas. Mas há também um esforço dos partidos de recrutar, formar de qualificar, e num certo sentido, de promover uma competição interna ao partido, não uma competição que leva à destruição, onde os competidores, ao mesmo tempo que têm objetivos comuns, de um determinado partido, reconhecem mutuamente uns ao outro, se qualificam perante uns aos outros. No caso do Brasil, progressivamente, nós perdemos isso. É difícil porque os partidos acabaram perdendo essa capacidade de recrutamento e formação.

Veja mais notícias sobre Política.

Veja também: